A Quietude de um Coração Morto
Paris respira em silêncio, como um cadáver ainda quente.
O ar é denso — uma mistura de fuligem, vinho barato e ambição humana. As chaminés exalam o mesmo hálito que outrora emergia dos templos — um vapor profano que eleva preces ao ouro e à glória.
Das sacadas, as cortinas sussurram promessas que o vento não ousa carregar. Homens e mulheres caminham apressados, temendo o frio, ignorando o medo. Pobres tolos. O frio é a única coisa viva nesta cidade.
Observo-os.
O suor da classe operária escorre pelos becos de Saint-Denis, alimentando ratos e revoltas. O brilho das joias no Palais-Royal reflete o vazio dos que as ostentam. É tudo tão ruidoso… tão efêmero.
E, ainda assim, impossível desviar o olhar.
As campainhas das carruagens ecoam como lamentos distantes — e às vezes me pergunto se não foram criadas apenas para disfarçar o som dos gritos abafados sob os paralelepípedos.
Os mortais chamam isso de progresso. Eu o chamo de fingimento organizado.
Ah, a ironia…
Os vivos acreditam que dominam a noite, quando na verdade ela os devora um a um — silenciosamente, com elegância.
E eu?
Sou apenas um espectador. Um vestígio do que o tempo esqueceu, condenado a assistir a repetição infinita das mesmas misérias.
Os séculos passam, e apenas mudam os nomes dos reis, não o cheiro da podridão. Luís Felipe ou qualquer outro — todos sangram da mesma forma. O sangue, afinal, é o único tributo que nunca perde o valor.
Contudo, nem mesmo nós — os que bebemos da eternidade — estamos a salvo do terror.
Há noites em que o ar vibra de um modo diferente.
Algo antigo desperta sob o solo úmido, e até mesmo os ratos cessam sua dança.
Sinto o arrepio da lembrança… um uivo longínquo nas colinas, o eco de uma prece em língua esquecida, o farfalhar de um casaco clerical nas sombras.
São criaturas que não deveriam existir — mas existem.
E, quando o vento muda de direção, até eu me recordo do medo.
Paris dorme.
Mas há coisas que sonham por ela.





Inspirador, não vejo a hora da próxima sessão