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Paris in Darkness

Público·9 membros

A Quietude de um Coração Morto

Paris respira em silêncio, como um cadáver ainda quente.

O ar é denso — uma mistura de fuligem, vinho barato e ambição humana. As chaminés exalam o mesmo hálito que outrora emergia dos templos — um vapor profano que eleva preces ao ouro e à glória.


Das sacadas, as cortinas sussurram promessas que o vento não ousa carregar. Homens e mulheres caminham apressados, temendo o frio, ignorando o medo. Pobres tolos. O frio é a única coisa viva nesta cidade.


Observo-os.

O suor da classe operária escorre pelos becos de Saint-Denis, alimentando ratos e revoltas. O brilho das joias no Palais-Royal reflete o vazio dos que as ostentam. É tudo tão ruidoso… tão efêmero.

E, ainda assim, impossível desviar o olhar.


As campainhas das carruagens ecoam como lamentos distantes — e às vezes me pergunto se não foram criadas apenas para disfarçar o som dos gritos abafados sob os paralelepípedos.

Os mortais chamam isso de progresso. Eu o chamo de fingimento organizado.


Ah, a ironia…

Os vivos acreditam que dominam a noite, quando na verdade ela os devora um a um — silenciosamente, com elegância.

E eu?

Sou apenas um espectador. Um vestígio do que o tempo esqueceu, condenado a assistir a repetição infinita das mesmas misérias.


Os séculos passam, e apenas mudam os nomes dos reis, não o cheiro da podridão. Luís Felipe ou qualquer outro — todos sangram da mesma forma. O sangue, afinal, é o único tributo que nunca perde o valor.


Contudo, nem mesmo nós — os que bebemos da eternidade — estamos a salvo do terror.

Há noites em que o ar vibra de um modo diferente.

Algo antigo desperta sob o solo úmido, e até mesmo os ratos cessam sua dança.

Sinto o arrepio da lembrança… um uivo longínquo nas colinas, o eco de uma prece em língua esquecida, o farfalhar de um casaco clerical nas sombras.


São criaturas que não deveriam existir — mas existem.

E, quando o vento muda de direção, até eu me recordo do medo.


Paris dorme.

Mas há coisas que sonham por ela.


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Júlio Gonçalves
Júlio Gonçalves
02 de nov. de 2025

Inspirador, não vejo a hora da próxima sessão

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