Prólogo: O Banquete da Degeneração
Paris, 1847 - Descontrole Iminente
A névoa úmida de Paris não era a mesma névoa de minha cidade natal Bruxelas; era apenas uma exalação doentia e pesada com o cheiro de carvão úmido, vapor, esgoto mal drenado e, mais perturbador de tudo, a fome.
As famílias mal tinham como enterrar seus mortos, o vapor subia pelas ruas vindo das fábricas que sustentavam os miseráveis. Os mesmos miseráveis que eram nada mais do que pedras a sustentar a base para os pés dos poderosos, vidas inúteis e facilmente substituíveis. Não era necessário mais do que balançar um simples pedaço de pão para isso, com esse gesto tínhamos outra leva de miseráveis aos nossos pés.
Aperto o colarinho de meu casaco, meio que para impedir o ar fétido de entrar em minha pele, enquanto caminho calmamente. Meus olhos cinzentos, treinados para discernir a verdade em linhas quebradas de um mapa antigo, liam com clareza a cidade como um texto cifrado: DESORDEM. As ruas eram um manuscrito apagado de mármore imperial coberto por miséria galopante.
Observo uma multidão perto de uma padaria. O pão, caro e escasso, era disputado com uma voracidade que mal se continha... Alguns ratos aguardavam migalhas caírem ao chão para que se alimentassem, outros, já se mordiam pois já sabiam que estas não existiriam. Não eram os ratos, muito diferentes da massa de humanos que ali se encontrava. Em cada rosto pálido e em cada grito rouco, eu via a falha de controle a ausência de um sistema que funcionasse, a podridão tomando toda a fundação.
"A civilidade," sorrio com tal escárnio, era respirável a instabilidade nas ruas, "é havia apenas uma fina camada de verniz, sobre a barbárie. E este verniz estava visceralmente rachando." Algo ia explodir, em breve, certamente não vai demorar muito... Posso sentir o cheiro do sangue, da pólvora, e ouvir o barulho das lâminas. Está no ar, está em absolutamente tudo ao redor...
Outrora em Bruxelas, eu havia buscado a ordem, no passado esquecido; Já em Paris, me via forçado a contemplar o caos do presente. A recessão era algo que não afetava apenas os bolsos; ela envenenava a mente, além de qualquer conceito moral, ou ainda alguma dignidade outrora existente, certamente isso destruía o cerne de toda a estrutura. Qualquer idiota poderia ver na iminente revolta não um levante popular, mas uma falha inaceitável na hierarquia. Líderes fracos, não deveriam existir, sempre trazem tempos perigosos...
Embora a cidade da Luz estivesse mergulhada em lixo, vapor e esgoto, havia o mistério da cidade subterrânea; isso sim é algo que me atraía, eu podia sentir o cheiro da oportunidade e claro, do perigo.
Meus anos no exército haviam ensinado que o poder real não estava em qualquer mapa ou na espada, mas na capacidade de controlar a narrativa, de impor a disciplina. Esta Paris miserável, esta orgia de degeneração, sujeira e desespero, implorava por uma mão forte como o aço.
Levo a mão ao punhal uma homenagem que havia recebido, bravura? Talvez.. o cabo frio era sob medida para a palma de minha mão. As lembranças da guerra advinham, no momento do toque, quantos corpos mesmo foram necessários naquele dia? Isso já não importa, retorno ao presente e me pergunto: Para onde o destino me guiaria?
Parece que ao invés de guiar-me para as catacumbas, desta vez me levava a salões muito bem iluminados, onde os poderosos jogavam xadrez com a vida dos pobres e miseráveis. E quem se importa com eles? Meras massas de manobra, sem importância alguma.
"Eles estão realmente perdendo o controle," sibilei para mim mesmo. "Os burgueses brincam, os nobres dormem, e a plebe se agita. O poder está vacilante, apenas esperando que alguém o pegue e o estabilize. Minha busca é por conhecimento oculto, sim, mas o conhecimento real... é como deter esta maré. Alguém tem que governar este Banquete da Degeneração antes que ele engula tudo."
Me aproximo da casa do regente não bem uma casa... Para ser honesto, um quase palacete, ao adentrar muitos empregados solícitos e bem apresentados. Parece que o regente, ao menos tem um bom olho na escolha da criadagem, adentrando mais o belo domínio, vejo que não estou sozinho.
Mal chego um dos criados trás uma taça de sangue, olho ao redor, um árabe ligado a tradição usando duas roupas, um tipo mais alinhado e um louco manchado de tinta, que nem compostura mínimas em suas vestes apresentava.
Olho para a taça, parece sangue de uma boa safra. Os outros na sala olham desconfiados, e não bebem imediatamente, entro no jogo. O com jeito de maluco com tinta é o primeiro a beber, puxo assunto, mal responde, ele fala pouco, parece louco... Acredito que será um problema em algum momento ou ainda um recurso valioso, como um animal selvagem que pode ser jogado em um ambiente hostil para se observar o resultado. Espero o regente para um brinde, ele não vem, mas brindo com o Magistrado e bebo de uma vez a taça. O Árabe que agora sei se chamar Amir, recusa o sangue. Seria desfeita ou uma peculiaridade apenas?
Não era preciso uma bússola, ou mapa, para sentir que a ordem imperava ali, embora fosse uma ordem tensa, forçada e frágil. Eu havia sido convocado por intermédio de um Magistrado, Sr. Thibault de Grimald era como se chamava, aguardávamos o regente Sr. Jean de Noah.
O imbecil do Regente era incapaz de ser pontual, o que demonstrava minimamente que estava deveras atarefado, ou seria com uma defasagem de pessoas competentes para resolver as coisas, ou nos considerava tão inúteis quanto eu o considerava como líder. De toda forma, eu teria que aguardar, meu criador disse que não era uma opção, evadir deste encontro, em nossa sociedade...
O Palacete do Regente, era uma ilha de silêncio e opulência no turbilhão da capital. Servos humanos, treinados para a discrição e com olhares vazios que sugeriam pagamentos muito acima da média, postavam-se em alguns pontos de acesso para serem prontamente convocados a qualquer tempo.
Notei uma anomalia imediatamente: eram poucos, muito poucos. Cerca de apenas seis homens, bem armados e disciplinados, guardavam a entrada principal – uma força irrisória para proteger um poder tão vasto. A máquina estava quebrando.
Ao invés do regente, surgiu o Sr Grimald, o Magistrado, braço direito deste. Ele nos apresentou as 5 leis de nossa sociedade, é, temos uma sociedade a parte. Não é exatamente um clube de cavalheiros por assim dizer... Em meio a apresentação, um empregado chega esbaforido e segreda alguma informação próximo demais dos ouvidos do nosso anfitrião, tento perceber, ouvir, mas não consigo.
Algo urgente aconteceu na noite anterior, algo que não deveria surgir, não deveria existir, a urgência toma conta da expressão de nosso anfitrião e somos designados para investigar, pergunto sobre os recursos, estes ao menos são disponibilizados. Porém nenhum reforço, apenas o grupo de 4 imortais desconhecidos que mal haviam trocado nomes. Porque nós? Poderia ser um teste, mas ao meu ver o poder estava abalado e muito....
No meio de uma noite muito escura partimos para o endereço desconhecido para averiguar o ocorrido, era um grupo despreparado, mas disposto. Teria de assumir a frente mais uma vez, e fazer o que precisava ser feito...
Senti um arrepio que não era de frio, claro, sensações humanas éramos desprovidos de muitas. Nem mesmo quando era humano sei se realmente as tinha.
Eu não sou um político, nem busco ser, mas sabia reconhecer perfeitamente o vácuo no poder. O que procurava nas ruínas, talvez estivesse flutuando nas ruas: o controle absoluto.




